Cannabis e a Estatização da Medicina

Puritania

Não tem nada a ver com o masturbador compulsivo do banheiro, tem a ver com o vício. Tou falando de droga, uma outra coisa. Eles são viciados, e o quê que tem a ver o vício com a droga, ora?! Ou seja: se a droga é de Deus e o vício é do Diabo, então por que proibir a droga? A tolerância é a única forma de proibição justa, pra quem acredita em Deus. Em nada a bíblia proíbe droga, ela proíbe o vício, defende o estado de sobriez e de consumo, segundo ela, tudo que Deus fez foi pra nossa alegria. Não pra alegria de uma maioria, Deus praticava a Divina Democracia [o que vale pra um, vale pra todos], como falar em proibições sem danificar a igualdade? Se existe uma proibição divina sobre as drogas, e a ciência se sente capaz de distingui-las, se sobrepondo à vontade, que seja aplicada a todas e vamos extingui-las.

É nesse sentido que o meu argumento baseia-se em que as proibições das drogas devem-se única e exclusivamente ao advento do Cristianismo. A cannabis é proibida hoje única e exclusivamente devido o advento da religião cristã e suas milhares de interpretações. Sempre acreditei que a medicina é o braço direito da fé, sempre argumentei isso de uma forma empírica, porque nunca me dei ao luxo de provar meus argumentos, que são oriundos de experiências pessoais, mas é com grande alegria que vejo como a literatura vem convergindo pra esse ponto de vista e como a história está sendo reescrita e os fatos, que passaram despercebidos propositalmente, estão vindo à tona. E o que eu peço é que o cristão em si tenha compreensão sobre os acontecimentos históricos, sem que isso prejudique sua fé, a presunção da verdade não pode se antepor a salvação, se buscas o paraíso é porque teu juízo é vitorioso, e é nesse sentido que ocorre a Estatização da Medicina, em seu movimento pós-renascentista, embriagada completamente dentro de um Estado Secular, onde a religião influenciava todas as decisões do Estado.

Em minha visão pessoal, a exemplo da demonização da cannabis, fica cada vez mais evidente pela política contemporânea que não só o Weber estava certíssimo sobre a Ética Protestante ser o pai do capitalismo moderno, como também a religião ser o ópio do povo, e que sua base ideológica está tão fortemente estruturada dentro de um Estado, que se torna impossível separá-la do mesmo. Abaixo segue a minha interpretação histórica dos fatos, ancorada em uma forte literatura.

Para entendermos a formação das políticas proibicionistas, encabeçadas pelos EUA, temos que observar que a “questão das drogas” foi formada por este duplo movimento: De um lado a criminalização do uso e da venda e de outro a medicalização, ambos relacionados. Davenport-Hines (apud Fiore, 2005, p.260) afirma que a ciência, representada pelos “médicos e profissionais de saúde, vai progressivamente legitimar o controle do Estado sobre as drogas, veiculando pesquisas que demonstraram o perigo que elas representariam [...]”. Logo, podemos dizer que a procura por algum tipo de modelo de saúde e segurança pública tiveram um papel fundamental na constituição de políticas públicas sobre as drogas no século XX. A medicina contribuiu fortemente pro que Rosen (apud Fiore, 2005) chama de “estado terapêutico”, onde o Estado legisla e garante legitimidade exclusiva ao receituário e tratamentos médicos, banindo uma série de outras substâncias “não-aceitas” (ou propositalmente excluídas) da mística da receitação médica. A relação íntima, portanto, da medicina com o Estado, foi vital em toda construção do “problema das drogas”. A medicina que, como bem coloca Foucault (2007), surge em sua cientificidade como medicina social, operando intimamente com o Estado moderno e suas formas de gestão do espaço e das populações. Podemos demarcar três etapas na formação da medicina social: medicina de Estado, medicina urbana e medicina da força de trabalho. A Alemanha é um dos marcos da medicina moderna, o primeiro sujeito a ser normatizado na Alemanha foi justamente o médico, quando a medicina e a formação médica passam a ser reguladas pelo Estado; esta normatização acontecerá também na ascensão do proibicionismo. De acordo com Foucault (op. cit, p.84-85): “O exemplo da Alemanha é igualmente importante por mostrar como, de maneira paradoxal, se encontra, no início da medicina moderna, o máximo de estatização. [...] Vê-se, por conseguinte, que não se passou de uma medicina individual a uma medicina pouco a pouco cada vez mais estatizada, socializada. O que se encontra antes da grande medicina clínica, do século XIX, é uma medicina estatizada ao máximo. Os outros modelos de medicina social, dos séculos XVIII e XIX, são atenuações desse modelo profundamente estatal e administrativo já apresentado na Alemanha".

Segundo Escohotado (1994, p.86): “As últimas décadas do século XIX, verão uma feroz batalha de médicos e farmacêuticos contra curandeiros e herboristas, cujo principal objeto é consolidar um monopólio dos primeiros sobre as drogas”.

Na primeira metade do século XIX, os psiquiatras já inseriram em suas categorias nosológicas a dependência. Influenciados por modelos morais que lhe precederam. De acordo com Ramôa (2005), Esquirol (1772-1840) foi um dos primeiros psiquiatras a eleger a “toxicomania” como objeto de investigação, seu foco foram as bebidas alcóolicas e o que não poderia passar despercebido é que o modo de tratamento para o que ele chamou de ebriomania (compulsão pelo uso do álcool) seria a internação. Nas palavras de Esquirol, escritas em 1833 (apud Ramôa, 2005, p.9): “A única precaução verdadeiramente útil, creio que é o isolamento. É preciso vencer os costumes de intemperança mediante um largo período se sobriedade, e não pode-se conseguir isto se não estiver em um lugar isolado onde não se possam satisfazer a necessidade de beber. As encenanças e os preceitos religiosos, os conselhos da filosofia, a leitura de tratados sobre a moderação, o temor às enfermidades físicas e intelectuais, consequência inevitável da embriaguez, são bons auxiliares do isolamento”.

De modo que se pegarmos a raiz do movimento proibicionista no mundo, de acordo com as teses já expostas no OP, onde o estudo sobre o álcool e suas implicações na saúde durante os séculos XVIII e XIX e suas consequências religiosas, levaram a uma caça às bruxas de todas as substâncias oriundas da natureza, a ponto de orientar a formação da FDA em 1906, e em 1909 a 1ª Conferência Internacional do Ópio, e a sequência de Tratados Internacionais e Convenções, que culminaram com as proibições mundiais, ficou de fora do escopo do vínculo religioso a proibição do ópio, em 1726 na China, e da cannabis em 1830 no Brasil. Mas será que isso seriam fatos isolados, ou, de alguma forma, possuem um forte vínculo com tudo que foi falado no presente tópico? Por isso, desdobrei em dois tópicos separados a serem publicados e darem continuidade a uma interpretação histórica mais realística, onde o único intuito é buscar a verdade. A questão aqui vira única e tão somente explicar o vínculo com as políticas sanitárias e saúde pública no enquadramento da cannabis, algo inexplicável, incabível, sem a menor sustentação teórica, oriunda do mundo científico, que explique a sua proibição, a não ser como ato de pura fé. Motivo pelo qual mantenho o meu ponto de vista, que tal motivo só ocorreu devido ao cristianismo e suas interpretações do mal.

Argumentar que a medicina está isenta de uma forte influência ideológica do passado, é abusar da paciência e da inteligência do usuário. O que foi entendido como um "mal espiritual", sofreu uma transmutação, se tornou um mal físico e mental, passivo de ser tratado, um efeito paranormal, ou para anormal [leia aqui a Paranormalidade da Cannabis: http://cia-da-maconha.blogspot.com.br/2013/07/a-paranormalidade-o-principio-ativo-da.html ]. À medida que os fatos vêm à tona, e a história tá sendo reescrita, torna-se cada vez mais visível à presença de uma religião infiltrada em um Estado, que nunca perdeu sua Secularidade nem muito menos sua Cristianidade.

A cannabis nunca teve em pé de igualdade a nível de criminalidade, saúde pública, violência e mortalidade com drogas ranqueadas, digo, crack, cocaína, heroína, ópio, e o pior de todos, o álcool. A restrição de seu uso só pode resultar em uma enorme arbitrariedade.