A Santa Fé e a Cannabis

A única substância que conhecemos uma palavra específica para “vício” ou dependência na antiguidade é o álcool. Porém, longe de ser um problema simplesmente do etanol, é preciso repetir, como Thomas Szasz (apud Bucher, 1988, p.35), que a dependência de drogas: “é uma questão de convenção e é, de fato, alçada da antropologia e da sociologia, da religião e da criminologia, mas com certeza não da farmacologia”.
Antes das políticas proibicionistas do início do século XX, ou do questionamento da utilização das drogas nos EUA do final do século XIX, temos na Idade Média uma série de proibições, embora com um estatuto diferente do período proibicionista posterior, a começar pela relação íntima: drogas-sabbat. Após os períodos grego e romano, funda-se, até onde o cristianismo consegue se impor, uma nova percepção acerca das substâncias psicoativas excetuando o vinho. Se se tinha uma visão sobre as SPA [substâncias psicoativas] como espíritos neutros ou imparciais que “intensificavam as inclinações naturais, boas ou ao contrário” (Filon apud Escohotado, 2004, p.35) será de uma nova maneira que tanto as drogas como a sua utilização serão percebidas pelo espírito cristão. No chamado “paganismo” pelos cristãos, existia uma confiança maior numa natureza individual e na sua automedicação, e médicos do período como Hipócrates chegavam mesmo a aconselhar a ebriedade de quando em quando “considerando que a descontração é coisa sã, e em si própria terapêutica” (op.cit).
O uso de “drogas” que não o vinho a partir da cristianização do Império Romano foi punido com tortura e morte, identificado com práticas satânicas e de feitiçaria, tanto na Europa (onde temos as tradições celtas) e nas Américas onde os indígenas foram reprimidos na utilização de suas substâncias, na prática de seus ritos e cerimoniais. Para os inquisidores era evidente, mesmo em esferas tão diferentes como os sabbats e os cultos peioteiros (muito mais introspectivos), a relação com o Diabo. Mesmo depois do fim da Idade Média a situação permaneceu com seus “avanços” e “retrocessos” no sentido da mentalidade que reinou na Idade Média. Em 1638 uma instrução do Santo Ofício espanhol dizia: “Nós, os inquisidores, abocados a suprimir a perversidade herege e a apostasia, por virtude da autoridade apostólica, declaramos condenada a erva ou raiz chamada peyote, introduzida nestas províncias para detectar roubos ou adivinhar outros acontecimentos, pois constitui-se um ato de superstição oposto a pureza e integridade de nossa fé católica” (Masters e Houston apud Escohotado, 1995, p.94)
Junto a estes novos pontos de vista foram atacados também os conhecimentos Greco-romanos e suas práticas logo foram postas na ilegalidade. “Em 391 D.C. o bispo Teófilo incita queimar a biblioteca de Alexandria, provando o desaparecimento de cerca de 120 mil volumes, e a partir de então o número de arquivos e textos destruídos torna-se incalculável” (Escohotado, 2004, p.39). O saber pagão, em especial sobre as SPA: “[...] considera-se contaminado de bruxaria [...] Sucessivos concílios mandam exterminar ou vender como escravos os droguistas e suas famílias”. Como indica um édito do rei franco Hilderico, o uso de “plantas diabólicas” é traição à fé cristã, e numa das suas capitulares Carlos Magno chama ao ópio “obra de Satanás” (op. cit). 
Em um movimento dialético as totalizações produzidas na Idade Média influenciaram diretamente o uso das substâncias psicoativas nos sabbats, e o uso das substâncias como era feito naquele contexto de perseguição foi utilizado como prova pelos inquisidores de suas pretensas verdades.
Toda perseguição tem por finalidade impor raízes morais.
Na Índia, anterior e até após o NDPS [Narcotic Drugs and Psychotropic Substances Act, 1985], cannabis é considerada uma droga suave, a qual é e era facilmente disponível. Existem muitas histórias de como Lord Shiva amava cannabis e viria por ela sempre que quisesse fumar com sua esposa. Shiva andava pelos campos adentro após fumar em família. Drenado, ele adormeceu sob uma planta frondosa. Após acordar, ele pegou algumas amostras das folhas da planta. Rejuvenescido, ele fez dela sua comida favorita.
Bhang, que é feito das folhas da cannabis, é bebido por muitos no festival de Holi. Seu uso é antigo, tem sanção religiosa entre os Hindus. Os soldados comumente bebiam bhang antes de entrar em batalha, da mesma forma como os Ocidentais tomavam uma dose de uísque. É inacreditável o que os EUA, movido por uma psicopatia religiosa ocidental, impôs àquele país, que se mostrou contrário à sua proibição em todas as comissões internacionais movidas pela ONU. A proibição lá só ocorreu em 1985, na era Gandhi, devido a sanções comerciais e poderio bélico. Seus representantes argumentaram sempre que os fatos relatados no ocidente, incriminativos à cannabis, não aconteciam em seu país. E igualmente relevante, as sanções impostas por colonizadores espanhóis aos índios sul-americanos, seu uso era algo milenarmente difundido em suas culturas, e como parte de seus rituais e crenças, assim como os Africanos em 1830 no Brasil a utilizavam em seus rituais e cultos, fato levantado por alguns historiadores como racismo, mas que é muito mais que isso. 
Os sumérios: vários comentadores de cannabis acreditam que o povo do Oriente foi o primeiro a usar cannabis para propósitos religiosos devido à incapacidade do homem de se engajar em introspecção. A teoria é que a planta cannabis dava o suporte ao homem para que o mesmo conseguisse introspectar, mas aqueles homens inicialmente acreditavam que “sua própria introspecção era na realidade os deuses falando com ele”, de acordo com Julian Jaynes, um psicólogo que escreveu o livro The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, “o povo antigo da Mesopotâmia ao Peru não podia ‘pensar’ como nós pensamos hoje, e eram, portanto, inconscientes... eles experienciaram alucinações auditivas - vozes dos deuses, ouvidas na realidade no Antigo Testamento ou na Ilíada - as quais vinham do hemisfério direito do cérebro, que dizia àquelas pessoas o que fazer em circunstâncias de novidade ou stress”. Terrence McKenna expandiu esta teoria em seu livro chamado Food of the Gods, e sugeriu que, “plantas psicoativas, como o cogumelo psilocybin e a cannabis, agiam como catalizadores e aceleradores para a transição da humanidade pra conscientização e autorreflexão. As alucinações e insights místicos experienciados por aqueles que consumiram estas plantas convenceram os veneradores antigos de que eles haviam entrado em contato com o divino”.
Em um exemplo disso, os Sumérios do Antigo Oriente desenvolveram sua própria ‘divindade pessoal’ a qual eles veneravam todos os dias queimando cannabis. Os sumérios acreditavam que a veneração diária de sua divindade pessoal os dava assistência em ganhar uma vida e serem corajosos em batalha. Contudo, comentadores acreditam que sua ‘divindade pessoal’ era na realidade apenas a “personificação da sorte de um homem, e sua capacidade de pensar e agir”. Em outras palavras, a cannabis se tornou intrínseca na religião Suméria porque eles acreditavam que estavam entrando em contato com seus deuses. Pesquisadores acreditam, contudo, que a inalação de cannabis estava na realidade apenas facilitando aos sumérios a descoberta do pensamento pessoal interior. 
Psicologia a parte, e sendo essa a grande verdade pra maioria, a cannabis se tornou o principal incomodativo do Monoteísmo, no qual Deus fala através do vinho, não da planta, e é óbvio que todos os psicólogos do Ocidente, e toda a comunidade cristã, acreditam nisso. Esse é o principal motivo pelo qual a planta não foi tornada completamente lícita em nenhum país até hoje. Todo o Ocidente é cristão, até os ateus que pensam que não o são. 
Se isso se torna ou não os motivos reais de sua proibição, resta questionar Abraão, o único sumério que ouvia Deus e os outros não, se ele ouviu Deus com o lado esquerdo do cérebro ou com o lado direito, se seu juízo perfeito se tratava de esquizofrenia ou bipolaridade, algo atribuído a cannabis. E eu me pergunto, será que na época em que tudo isso aconteceu ele estava usando cannabis [?], já que isso era um costume de sua época e de seu povo. 
Nascia ali uma religião, e com ela, a proibição da cannabis.