A Mensagem de Deus

A Democracia existe pra assegurar a escassez, o Capitalismo, pra produzir bonança. Uma terra escassa não tem o que plantar nem o que colher, por isso não há esperança. É nesse momento que a ajuda tem que vir do céu; não pode ser papai Noel porque este traz presente, mas não sacia os dentes de quem tem fome, o que a terra consome é muito mais que suor e lágrimas, mas sentimentos de momentos felizes, onde as raízes desapareceram em meio à fertilidade da terra, uma guerra que não parece ter fim, entre Deus e a Criatura, uma loucura humana, tocada em versos de dor, o amor sumiu entre as conquistas que o vento levou, só sobraram o calor e a poeira que o vento varreu. Em meio ao sentimento e o sofrimento que tudo perdeu, cai à terra de joelhos, e suplica pelo Deus que não mereceu, dos erros que cometeu, pela loucura de perseguir o impossível, a salvação, só lhe resta uma oração, e esta ele faz com carinho, como um moinho que move as lágrimas do coração. E nesse momento então ele encontra Deus, e ele lhe dá esperança de que vai chover, que ele precisa acreditar um pouco mais, que ainda não é hora de morrer, ele ainda não chorou o suficiente, seus olhos ainda não tinham secado, como a terra que o protegeu, lhe deu sombra comida e ar fresco, e nada lhe faltou, mas ele não havia cuidado com amor, achou que era sua e podia fazer o que bem entendia, Deus não lhe proibiu, nunca duvidou de seu caminho vencedor, como grande morador do local, introduziu a moral, foi só isso que fez, seu merecimento carrega um ressentimento com o Criador, como se tivesse esquecido de algo, algum compromisso, como se tivesse falhado, tivesse errado alguma coisa, mas que coisa era essa, já tinha revirado o passado, e nada tinha encontrado. Então ele se deita, desiste de lutar, se integra a terra, mas mesmo nesse momento ele a rejeita, não quer morrer ali, ser enterrado ali, quer ir pro céu, o paraíso, e nesse momento ele dá até um sorriso, mas nada acontece, o dia amanhece, e um calor infernal, mas ele tá bom, tá bem humorado, se sente melhor, saber que sobreviveu, tá motivado, possui idéias novas, “Quem sabe eu descubro a solução, tudo isso é pra me mostrar que eu preciso sair daqui, preciso mudar de lugar, e é o que eu vou fazer, nem que eu morra no caminho, mas aqui eu não vou ficar, entendi a mensagem de Deus, o melhor de tudo é saber que ele tá vendo tudo, e nessa jornada ele vai me acompanhar”.
O ser humano se configurou como o grande mestre das escapadas, em seu entender, se trata de uma luta onde ele não vai desistir, de forma alguma está fugindo [...!].
A natureza o orienta, mas ele entende que aquilo ali é só mais uma provação, ele já tem a solução, vai abrir passagens, construir barreiras, que transpõem as cordilheiras, unindo o polo norte ao sul, seu destino é andar de um lugar para outro, sem que se perceba que nunca saiu do lugar, o estado de espera que assombra a imaginação. É quando ele cai no chão, mas nada acontece, o dia amanhece e começa a caminhar outra vez, reinicia uma nova conquista, um alquimista da razão, transforma pó em areia, barro em pão, assim como a sereia encanta o bom navegador. Este é o seu caminho da dor.
 
Notas do autor:
Transforma pó em areia: análogo à criação, que o “homem veio do pó, ao pó voltarás”, Deus fez o homem do pó, o homem do pó ergue suas construções, e no final só o que sobra é uma areia, deserto, e aí ele se move de lugar, pensa ele “vou começar uma nova vida em outro lugar, lugar que Deus vai me indicar”.
Transforma o barro em pão: a alquimia da comida, o forno da vida, as combinações, misturas, que geram processos pra saciar a fome.
A sereia: a explicação pra sua ruina, um animal-demônio, que ele desejou, caiu em tentação, o vício, a explicação pro seu fracasso, quase um ofício de Deus.
Entre o Culto da Razão e o Deísmo, se encontra o Cristianismo, a chave de todas as Leis, o motor que move o Homem a encontrar mais rápido seu Juízo Final, o próprio Determinismo.
[Rousseau] –“A Natureza não nos engana, nós que nos enganamos”–nada melhor que ele, que oscilou entre esse motor diatônico de uma nota só [católico e protestante], movido pelo enorme bem-estar. Ele nos deu o conceito de sociedade e dizia que é impossível voltar ao estado de natureza, algo que havia perdido em meio ao que havia acreditado, talvez porque nunca o tenha tido, e talvez por isso tenha morrido insano, mas naquele momento talvez tenha se sentido menos humano e tenha finalmente entendido a Lei.
 
 
“Quando se vive na natureza, você vê a vida em tudo, mas porque tudo ali tem vida”.
“Se a sociedade o corrompeu, foi a vida que a sociedade lhe deu, uma vida próxima de Deus”.

 

[Anne Henriques]