A Intriga: Os Despossuídos da Calçada

A guerra aponta para uma visão unilateral da coisa, mas o que acontece é que as duas coisas tão afim de porrada e não vão se sacrificar por matar ninguém. Isso acontece quando pisam no calo de alguém, esse alguém fica ofendido, ofendido porque não era a primeira vez, ele já tinha avisado, uma, duas, três, da próxima vez eu vou fazer um calo em vocês. Ninguém ouviu, achavam que ele tava brincando. Foi quando Marlon Brandon apareceu com aquela barriga, apareceu um calo ósseo. Por que aquele rapaz tão bonito fez aquilo com ele? Ninguém lhe falou que comer demais faz mal a saúde? Parecia uma... Atitude insensata, aquela que quando vê uma barata no travesseiro, larga uma chinelada, ou então acende um isqueiro, queima ela ali mesmo. Às vezes fazemos coisas que não acreditamos, a gente chama de raiva do momento, aquele pensamento tão rápido que, quando sai , a merda já aconteceu, às vezes dá certo, e você diz Mereceu... A verdade é que a solução engole a si mesma, quando descobre que sobre a mesa tem muita coisa, faz parte da sua dieta comer demais. Depois passa mal, foi culpa da comida, tá com um cigarro na mão que não acabou e já tá acendendo outro, parece um gesto espontâneo, essas coisas devem passar com a idade, ou piorar, não sei, o vício não tem piedade, só tem vontade. Prestei atenção no homem que tava passando e perguntei... Pra onde ele vai tão calado.. Parece que tá apressado, tá preocupado com alguma coisa.. Parece que guarda no bolso um segredo, um frio nos dedos, como tá prestes a dar um murro em alguém, por ter sido contrariado, alguém falou algo que ele não queria ouvir, por isso ficou com raiva e saiu dali, tentou descontar em alguém. Isso acontece a todo instante, alguém quer se vingar de alguém. Em nossa sociedade isso é uma constante, uma espécie de diamante cor-de-rosa, você olha, cobiça e quer um pra você, como uma vitrine, você passa e fica olhando, como gostaria de ter, mas o dinheiro não dá e tem conta pra pagar, o sonho fica só pra você. Olhando pelas ruas, a cidade tão interessante, com tantas coisas pra fazer, como todo mundo é feliz, diante de seu nariz você pode admirar esse adorável mundo que criamos, como amamos tudo que tá ali, mas de repente alguém lhe diz que dali você não passa. Você para, olha e pensa, e pergunta... “por quê?” e alguém lhe responde “porque é proibido”. Aí você se lembra das pessoas que encontrou no caminho e sente vontade de falar, falar o que tá errado, falar que desse jeito não dá pra ficar, eles não podem modificar a passagem, deformar a paisagem, isso não é uma greve, um motim, peregrinação, é indignação, minha casa fica do outro lado da rua, como é que não posso passar, como assim foi interditado? Fiquei sem lugar pra morar? Que conversa é essa? Sai da frente, abre logo esse negócio, deixa eu passar. Mas não consegui, o guarda era maior que eu, uma autoridade, dono da verdade. Mas eu não vou embora não, vou ficar parado ali, pensando naquela situação.. Qual será a minha próxima ação? A intriga é uma briga que nunca tem fim, só tem começo, seu apreço é a postergação, você adia, mas não evita a confusão.

 Os despossuídos da calçada, os que não puderam entrar em sua casa foram se aglomerando no local, e à medida que foi passando, eles foram aumentando, e a polícia também, os reforços chegaram e junto com eles a tolerância, montada a cavalo, e funcionou, intimidou, mas não acabou. No final, ninguém sabe como começou, sabiam que havia um motivo, mas havia um objetivo e este foi mais forte, como o norte que nos dá a direção, existe lei, constituição, algo que deve ser respeitado, você só não entende por que foi colocado de lado algo que era seu, foi deus quem lhe deu. A vontade de reagir, de não ficar calado, aquela sensação de não toque em mim..! Tive um dia ruim, mas a minha noite.. não vai terminar assim, dessa calçada não saio, não vai ser tão fácil assim.

Vejo como somos despossuídos tão facilmente, algo que era nosso agora não é mais, dá uma sensação que tudo foi dos outros, digo, os outros não são ninguém, apenas alguém em nosso caminho, como se fosse uma oposição. Foi isso que eu vi no Observador Político, uma calçada, vai ser fria a madrugada... O dia amanheceu, e o que eu percebo é que FHC morreu, a política tá morta, e nesse momento você procura uma porta, e eu digo que ela tá do outro lado da rua. A princípio a calçada é nua, mas ela é sua, o seu novo lugar pra morar, breve um monte de gente aparecerá por lá. O coração não pode ser despossuído, quando se machuca o coração de quem ama, o universo todo se enche em chamas e destrói seu agressor. Seu partido será destruído, como castigo, de quem não faz as coisas por amor. E isso vale pra qualquer partido que esmague os espinhos, e junto com eles, a flor.